Reverie 6 - Partículas de nada

 



"(...) Nossa alma, ainda que não a conheçamos bem, busca o desconhecido. O nosso desconhecido.

~Petit Oiseauu. 18 Março, 2023.


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          Desde que me entendi por pessoa nesse mundo passei a acreditar que eu era uma daquelas almas que carregam uma excentricidade desconcertante até pra mim. Creio que o primeiro vislumbre de autoconsciência que tive e que me fez perceber esse pensamento eu estava no quintal da casa da minha avó. Não recordo a idade que  tinha, mas penso que deveria ter quase 6 anos e provavelmente não estava estudando porque a minha memória guarda junto desse dia e do momento aquela sensação de que os dias pareciam longos e eu podia fazer tanta coisa antes do sol se pôr, que certamente se estudasse, já não aparentariam ser tão longos assim...

       Eu estava com minha prima e brincávamos de cientistas, a gente nunca tinha brincado de cientistas juntas antes. Coletávamos algumas sementes e pétalas de flores para o nosso experimento, usávamos uma panela de alumínio que nossa avó tinha deixado utilizar na brincadeira. Coloquei um pouco de água, pétalas, ervas e sementes na panela e deixei junto do fogão à lenha para que o fogo fizesse a mágica deixando nossa fórmula super secreta borbulhando.

      Após coar e separar algumas amostras em frascos diferentes que retiramos do fogo, eu e minha prima avaliamos cada uma delas e tinha essa mistura com alguns vestígios de ervas e pétalas que quando eu ergui a minha mão com o frasco e o conta gotas contra a luz de um sol de quase entardecer eu percebi aqueles pedacinhos de coisinhas flutuando no pequeno cilindro. Aquelas partículas pequeninas refletiam a luz, cintilavam e rodopiavam sozinhas com o movimento do líquido, foi então que me senti como um daqueles pequeninos pedacinhos de matéria, o mundo se expandiu de dentro para fora de mim num instante e em milésimos de segundos que duraram uma eternidade me tornei a criatura mais sozinha de todas nesse universo. Eu não sabia então o que significava aquela sensação, mas me aterrorizou de tal forma que eu não pude conter que meus olhos se enchessem de lágrimas e algumas rolaram quentes pelo meu rosto que logo esfreguei com as mãos para que desaparecessem. 

          Minha prima continuava a falar comigo, mas eu já não conseguia prestar atenção nas suas palavras, eu olhava o frasco contra o céu com poucas nuvens e me parecia que eu queria apenas duas coisas ou eu poderia dizer apenas uma...? Um abraço e desaparecer. Eu sentia que precisava de um abraço apertado urgentemente e precisava desaparecer dentro desse abraço, porque minha cabeça de repente já não era um lugar acolhedor, se tornou barulhenta. Não barulhenta por ter várias vozes, era uma só, com várias ideias que me deixaram sem chão e foi como se eu tivesse começado a flutuar perdida na minha própria realidade, como se eu fosse uma das pequenas partículas no frasco pairando naquele líquido. Não dava para sentir pena delas porque elas não eram nada e da mesma forma percebi que não dava para sentir pena de mim, porque eu também não era nada. Mesmo que estivéssemos solitárias e flutuando, ao que tudo parecia, sem rumo, ainda sim estávamos aprisionadas. Eu não pude evitar pensar que eu precisava desaparecer num abraço que fosse aconchegante e eu sabia que não conseguiria me dar, ninguém mais conseguiria... Então estremeci com o peso do pensamento que eu sou eu e mais ninguém. Na imensidão do frasco de vidro eu era aquela partícula e na imensidão do céu eu era como o ar praticamente intocável e intangível, porém ainda aprisionado por forças que ele não pode controlar, pairando a mercê de leis que não foram feitas por ele, livre e preso numa dualidade angustiante.

           Quando a ciência de que aquela voz na minha cabeça não me deixaria nunca mais, que eu sabia que ela por mais que estivesse comigo não era eu e eu, embora não fosse aquela voz, me confundi nela no instante seguinte. Apesar da dor ter perfurado meu coração como uma lança e como um fio cortante atravessou cada canto do meu cérebro, percebi minha prima que olhava nos meu olhos e disse que queria ir na casa da outra avó dela para pegar algumas pastilhas de vitaminas efervescentes e fingir que eram os remédios que a gente tinha criado. Eu ali parada olhando admirada entre o brilho do frasco de conta gotas e suas partículas e o brilho dos olhos da minha prima, sorri, acenei afirmativamente, enquanto a voz na minha cabeça me dizia que minha prima nunca saberia, nunca desconfiaria de tudo oque eu tinha acabado de pensar porque ela não era eu, apenas a voz e mais ninguém estava ali comigo dentro do meu mundo imenso, sinistramente belo e solitário.

          Não me senti exatamente feliz desde então. Eu sinto que me tornei diferente de todo mundo e de todas as pessoas que estavam à minha volta, me senti totalmente à parte do que faziam, me parecia que eu não pensava sequer como as outras pessoas. Um peso enorme se apossou do meu ser e daquele segundo em diante eu soube que teria que representar alguma coisa no mundo, alguma coisa que eu nem sabia o que era, talvez não fosse nada do que eu gostaria de ser pra eu mesma e eu precisaria decidir dali em diante. Sabia então que o mundo era um lugar cheio de coisas belas e horríveis que deveriam conviver entre si assim como eu deveria encontrar equilíbrio em meio ao turbilhão dentro de mim e a minha realidade. Eu quis chorar, dessa vez desesperadamente, ao ponto da minha garganta, num aperto amargo, ter de engolir o choro e a explosão que logo em seguida me ferveu por dentro. Minha prima parecia contente e eu me senti velha perto dela. Como se eu mesma já não fosse uma criança com direito a brincar ali do seu lado.

           Essa memória me é bem nítida daquele exato momento, por mais aterrorizante que ela tenha sido é uma das memórias que mais me deixa nostálgica, pois creio ter sido um dos poucos momentos da minha vida que eu mais me senti cheia de mim e ao mesmo tempo uma das mais tristes porque tive consciência do quão só e vazia eu seria a partir dali, eu havia me tornado uma partícula de nada no meio desse universo. Não saberia nunca ter organizado isso em palavras naquela idade, mas o turbilhão de emoção que me atravessou naquele instante me fez gravar, escritas com linhas de fogo na memória àqueles ínfimos minutos e conseguir articular hoje a maior parte do que senti.










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