Reverie 9 - Tzedakah
"E pensa ainda quantas atribulações te causa tamanho fardo. O teu negócio é o estomago do ser humano: o povo faminto não aceita a razão, não se apazigua com a equidade, nem se dobra a qualquer apelo"
~Sêneca. Sobre a brevidade da vida & sobre o ócio. 2021.
É cada vez mais frequente cenas que me vem à mente nas quais eu me assemelho a uma mendiga, mesmo que eu não esteja pedindo nada para ninguém, ainda sim paira um sentimento de que sou vulnerável, alguém sujeita a quaisquer perigos decorrentes da minha ausência de recursos. Esses pensamentos que as vezes me parecem memórias distantes, não me assustam nem me deixam preocupada de fato. Pensar assim me deixa intrigada sobre como eu me comporto em relação a essas mesmas pessoas que são vulneráveis e lhes faltam recursos para parecerem "dignas" de se relacionar em pé de igualdade com o restante da sociedade.
Quando ocorre do meu olhar se cruzar com o de algum trausente seguido de um pedido de ajuda sempre fico intrigada ao pensar em como elas me veem, em como percebem o meu olhar em relação à elas naquele exato segundo. Me intriga porque não posso evitar pensar em como eu mesma me sinto ao ser questionada com um "moça, você pode me ajudar?" seguido de uma mão estendida e um olhar que suplica por ajuda. Me intriga a pergunta que eu mesma me faço no instante seguinte, "será que eu posso mesmo te ajudar?" Será que estou em posição de ajudar qualquer pessoa? Perceber a mediocridade do meu pensamento quase que involuntário me faz compreender que, não importa a quantidade de questionamentos que perpassam minha mente ou como eu me sinto em relação ao que elas pensam sobre minha postura em relação à elas, ou mesmo ao quê e como essas pessoas se sentem, desde que eu possa oferecer ao menos a mais reles moeda que carrego no bolso. Procuro me colocar no lugar delas, no lugar dos seus sentimentos, afinal de contas, poderia eu carregar uma moeda valiosa o suficiente para suplantar toda dor e sofrimento de uma vida que foi tolida pela falta da mesma?
Por vezes me é angustiante pensar que elas não sabem que é quase palpável a dor em mim ao perceber essa vulnerabilidade dos seus corpos, da sua saúde e dos seu sentimentos, até mesmo do seu próprio ser. Não consigo imaginar se isso se trata de muita presunção ou arrogância da minha parte, porém como isto seria diferente? Mais uma vez me questiono, porque elas e não eu ali, naquela posição? Ao passo em que reflito sobre qual seria o meu pensar e o meu sentir caso fosse eu nessa posição, seria possível que eu refletisse sobre os meus afetos e dores se estivesse nessa situação de vulnerabilidade? Ou o pensamento constante seria quando conseguiria a próxima moeda?
Sempre retorno para a vida de Maria Carolina. A partir do primeiro momento em que li suas palavras eu a entendi como alguém tão além de um estômago faminto por alimento que pudesse nutrir seu corpo. Entendi Maria Carolina como uma mente magnificamente faminta de si e do mundo, faminta de saber e conhecer tudo o que vai para além de qualquer necessidade primária. Faminta de vida embora fosse a fome a carrasca que a fez gritar e lutar por meio da escrita… Então eu retorno.
Retorno
Ao perceber em como Maria Carolina parece ser uma mente aquém da própria realidade que a circunda.
Retorno um pouco mais.
Ao ficar intrigada em dizer a mim mesma que Maria Carolina provavelmente seria eu ao pedir ajuda.
Retorno.
E vejo que sou em parte Maria Carolina, que anseio além do alimento para o corpo, o alimento da mente e alma.
Pensar assim me intriga, pois me ver na porta de algum desconhecido e pedir um pouco de alimento deveria me assustar considerando toda a realidade culturalmente discriminatória envolvida nessa ação. Ainda sim, mesmo agora quando preciso pedir para saciar-me de alimento físico, o anseio de nutrir-me de algo mais que me permitiria prover recursos com minhas próprias mãos para nutrir este corpo é que na verdade me deixa assustada, petrificada em mim mesma. Eu realmente não consigo esquecer como nesses momentos de reflexão estou sempre como a andarilhar por um limbo, tateando às cegas do meu próprio vazio interior da minha própria mente que não encontra portas onde bater para procurar um alimento que possa nutri-la. Me questiono então, aqueles que andarilham e caminham sendo vulneráveis à tantas dificuldades concretas, estamos em situação tão diferente? O que me difere de você é o prato de alimento e o teto? Se você tivesse alimento no prato e um teto essa sensação de estar perdido, sem compreender o mundo, faminto dele e de si, iria embora do seu interior ou ele continuaria a pairar no conforto do seu lar e do seu corpo bem nutrido assim como é pra mim?
Eu retorno.
Retorno para dentro de mim e me questiono sinceramente, eu deveria me envergonhar por ter estas dúvidas? Eu deveria me envergonhar de não saber e ainda dar igual importância ao pensar sobre a fome do estômago, a fome da existência e sobre a fome de sentido?

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