Reverie 10 - Não tenho escrito mais
"Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas - escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio"
~Clarice Lispector. Água viva. 1973.
Sergio Vaz disse um dia: “escrever dói”
Não concordei nem discordei porque não conseguia nem compreender oque isso significava, já que pra mim escrever parecia ser uma prática terapêutica, conseguir deixar os sentimentos fluírem pelas palavras me parecia uma boa forma de aliviar as minhas dores.
Não importou quais das minhas considerações já existiam, essa frase continuou a pairar na minha mente por longos anos, toda vez que eu vou escrever algo ela fica como aquele eco que a gente grita lá do alto de uma montanha e ele responde de volta sabe?
Escrever dói
Escrever dói
Escrever dói…
Eu não entendo porque a gente demora tanto para concordar com algumas verdades, já que eu pelo menos, todas as vezes que escrevi, o fiz para que a dor pudesse ficar ali naquelas palavras, no papel, quando eu bem sabia que a dor que eu precisava escrever não sairia de mim por completo, nenhuma delas me deixou. Eu apenas podia vê-las em forma de palavras para reorganizá-las, numa tentativa vã de que se encontrasse as palavras exatas e colocasse no tempo verbal correto eu pudesse de alguma forma tornar essa dor mais bela de se ler… talvez mais bela até mesmo dentro de mim.
Muito escrevi também para soltar os pensamentos que povoavam minha mente e acabavam por me causar mais dor de tanto mais pensar em como escrever no papel aquelas ideias que tão extensas e complexas de se harmonizarem em um limite de palavras que não sejam exaustivas de se ler. E, apesar de todos os meus esforços...
Ainda não descobri como falar em silêncio...
Pelo menos não como musicistas que com alguns acordes criam uma melodia que explica a dor mais profunda ou a alegria mais nostálgica em notas.
Ainda não descobri como falar em silêncio...
Não como os artistas de cinema ou teatro mudo, que escrevem todo seu roteiro usando de seus corpos, rostos e movimentos, que transmitem a tristeza e a paixão em lágrimas e olhares.
Ainda não descobri como falar em silêncio...
Não como pintores que criam belíssimos quadros, em que cada pincelada e escolha das cores e suas tonalidades representam o ódio e a esperança de dias melhores.
Talvez um dia eu consiga transmitir ao mundo tudo aquilo que habita em mim, mas por hora meu apoio são as letras que se embaralham e nessa dança confundem mais do que iluminam a realidade do horrífico silêncio que grita em meu ser.


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