Reverie 5 - A dor das decisões

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"(...) O sofrimento e a dor são sempre obrigatórios para uma consciência ampla e um coração profundo. Os homens verdadeiramente grandes, a meu ver, devem experimentar uma grande tristeza no mundo.

~Fiódor Dostoiévski. Crime e Castigo, Terceira parte - Cap. V . 2001.

 

        Inúmeras são as vezes em que passamos noites em claro procurando formas de saber fazer algo melhor de nós mesmos e quando menos se espera toma-se consciência de que estamos a pairar em meio ao caos tentando sem sucesso tomar as rédeas do que não se controla, buscando um equilíbrio que na verdade só existe concomitante ao próprio desequilíbrio, a vida tem dessas ao manter as coisas, no que parecer ser, um eterno fluxo cíclico. Não se cobrar tanto por cada decisão imatura, cada erro ou acerto, é uma salvação para a auto laceração da carne e espírito que por vezes nos imputamos? Ou não há diferença entre se cobrar ou não, pois os erros e acertos não dependeriam do tanto ou da forma que nos cobramos, mas sim da nossa capacidade de ter paciência e discernimento de saber no que vale a pena gastar nossa energia?

         A verdade que tenho comigo me faz refletir o quanto pareço no presente, em todas as vezes que foram necessárias, estar despreparada para lidar com todas essas situações sejam de conflitos internos ou externos. Me parece razoável que hoje sou bem mais capaz de tomar uma decisão melhor sobre uma situação do passado do que tive quando me deparei com tal questão, mas será sempre assim...? Consequentemente é tragicômico que justo as escolhas do passado, quando ainda não gozava de uma visão mais ampla, me fazem viver mais situações problemáticas, destarte exigem maior abstração de mim para decidir novamente. Logo, decido aquilo que me parece certo, até que o futuro venha a me jogar na cara o quanto eu possa ter sido precipitada outra vez. É quase como se me julgasse incompetente com um escárnio que dói na alma, mas que também é necessário de ser visto para que seja compreendido.

        É ou não preferível acusar a vida pela dor de nossas inconsequentes decisões, colocá-la como a vilã de todos os nossos infortúnios pessoais ou materiais? Porém, eu hoje não vou dizer ser ela a me colocar frente à tantas provas. É preciso não só saber, como também compreender em nosso âmago, que somos os únicos responsáveis por trilhar nosso caminho sejam pelas boas estradas ou mesmo as que se tornam tortuosas engendradas pela nossa falta de discernimento. Mais uma vez, pudera hoje eu ser sábia o suficiente para escolher caminhos mais edificantes do que outros dos quais percorri até aqui...

         Se tudo oque procuramos é uma forma de reduzir o impacto negativo das nossas decisões em nosso futuro, seria sensato então pensar que o presente, seja esse elo entre as duas dimensões tão próximas e ao mesmo tempo tão distantes que nos escapa continuamente...? Elo esse que comporta tantas decisões com consequências incomensuráveis em nossas vidas. Lugar no qual vivemos em busca de recompensas positivas, nele escorrem entre nossos dedos para um passado de milésimos de segundos as vidas futuras que sequer podemos imaginar viver enquanto abrimos os lábios para tomar uma outra decisão precipitada. Por fim, seriam bem essas as decisões que nutrem a balança da vida. A angústia de se encontrar no instante crítico entre o sim ou o não, o pensamento ou a ação, o desespero e a suposta paz que almejamos, denota que na maioria das vezes sofremos antecipadamente por algo que a vida, destino ou o universo, como queira, se encarregará de manter o "fluxo cíclico" num presente futuro independente da nossa decisão.



"Ça n'est égal cê qu'on pense de moi"






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