Reverie 3 - Inquietação e a completude do ter


         A inquietação por ter é sempre tão instigante que chega ser incômoda para algumas pessoas que como eu certamente irão preferir a calmaria das águas em detrimento do mar revolto. A ânsia parece suprimir em muito a necessidade de olharmos à nossa volta e perceber o quanto somos pequenos e passageiros na vida, portanto os excessos ao qual nos expomos não parecem proporcionar em si experiências que enalteçam positivamente o nosso íntimo, ainda sim é oque nós mais fazemos.

         Estou errada ao imaginar que essa inquietação é fruto de uma revolta interior não resolvida entre o eu e a sociedade, que, adoecida, pretende justamente estimular uma sede insaciável por coisas? Compreendo como se fosse uma estratégia sádica e hipnotizante exercida em grande escala, do qual quaisquer apelos de outras vozes parecem não ser o suficiente para nos recordar de como: "ter" não é a única coisa necessária para vivenciar momentos carregados de bons sentimentos. Nosso interior é rico e logo, o reconhecimento real nele, dele e para ele, também nos prometem grandes doses de alegria e momentos únicos de felicidade. Aparentemente adoecemos todos, perdemos aos poucos as forças no cabo de guerra entre a ideia de ter coisas, em busca de conforto e ter coisas para além do necessário, ter em excesso na ânsia de tapar o vão entre si e o outro. Obviamente a ideia do conforto é bem plausível, o interessante é pensar aqui que quando há excessos, esqueceu-se já a ideia do conforto, essa ânsia toma lugar e independentemente que esse 'mais' signifique 'menos' de nós mesmos e 'menos' do nosso tempo, continuaremos como zumbis dos nossos próprios desejos e daqueles desejos que um dia sequer foram nossos, são do outro no qual nos confundimos. 

         Olhar para dentro dói, oque me impressiona é que há tantas pessoas que enxergaram essa necessidade e disseram tantas vezes e de inúmeras formas compartilharam esse saber. Ahh se essas vozes fossem mais bem ouvidas... Talvez mesmo esse embróglio em que nos encontramos por querer oque não é necessário, não nos tirassem tanto sono. A verdade é que as pequenas doses ofertadas regularmente para saciar esse "ter", fazem parecer mais suportável o ato de ignorar o abismo que somos e que nos confronta sempre que temos um vislumbre dele. Mais prático é do que se jogar nele e passar pelo difícil processo da busca de si e da 'possível' plenitude advinda. Comprazer-se do que é necessário e desvencilhar a mente do que é dispensável ao nosso bem estar físico e mental é talvez demasiadamente cansativo e não há glamour em fazer isso. Talvez eu viva em uma época errada, ou esteja deslocada das verdades factuais que compõem os círculos sociais dos quais transito, ou como imagino, ao menos me esforço em integrar. Contudo, essa covardia da recusa em se ver de verdade me incomoda ao ponto de me deixar enojada em olhar as máscaras que dançam supostamente como benquistas... A quem eu quero enganar, elas devem ser realmente admiradas!

         Ainda sim, acredito ser um fato um tanto quanto angustiante observar que todos nós estamos à deriva nadando aos prantos em busca de uma satisfação que tão claramente esteja dentro de nós. Nesse mar de coisas que só sentimos que precisamos do que está mais distante, estaria errada em pensar que realmente nadamos contra nós e que ao percebermos essa distância percorrida, nos sujeitamos inconscientemente e nadamos para mais longe na busca frenética por mostrar ao restante da sociedade que na verdade podemos sim ter coisas? Que os carros, roupas caras, alta gastronomia etc, são sim sinônimo de sorriso e portanto alegria e completude? Que não são máscaras, são realmente aquilo que somos e que esse pulo dentro de si é só coisa de gente pertubada que não sabe admirar as pequenas coisas da vida e sentir completude em seus frutos? Coisas realmente trazem a felicidade e a completude e eu estou só em mais um devaneio romantizando oque não deve ser romantizado na escrita...

Monólogo escrito em: 11, Jan. 2022


Dinheiro gasto e felicidade ganha em 13, Jan. 2023


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